Na semana passada, tive o prazer de participar do seminário “Cidade, Jovens e Circulação”, realizado nas dependências do Canal Futura.* Como o título explicita, o objetivo era discutir as dificuldades, que os jovens favelados enfrentam de circular em suas comunidades e na cidade. No fundo, uma louvável idéia de anti-guetificação e de aproximação com “o outro”. Durante os debates, foi reconfortante verificar que está definitivamente superada a época de visões “chapadas”, sobre as favelas e sobre os jovens. Em todas as manifestações foi deixado claro que há jovens e jovens. Cada trajetória de vida está relacionada com gênero, faixa etária, tipo de favela que habita, acesso à oportunidades e mesmo a opções pessoais. Quanto às favelas, jamais se deixou de considerar que há favelas e favelas - de centro e de periferia; economicamente dinâmicas ou apenas dormitórios; de baixada e de encosta. Internamente, a referência sempre foi a diversidade. Uma diversidade que reproduz homoteticamente a sociedade, sobre aquele espaço, fazendo com que, dentro de uma favela se encontre uma “zona sul”, “bairros classe média” e uma periferia. Relativizou-se até a idéia de “circulação”. Reconhecidos os constrangimentos à circulação intra e extra-favela e uma impermeabilidade local aos “de fora”, identificou-se as noções de territorialidade, a ocupação do tráfico ou das milícias, as ações violentas da polícia e preconceitos como inter-atores da mobilidade, como construção dialética. Diante disso, ocorreu-me que, no aspecto da territorialidade, internamente às favelas, além da precariedade dos caminhos e escadarias e à topografia, há uma forte componente sócio-cultural que marca a geografia da sociabilidade. Tem sempre: “os de lá” e “os de cá”, “os de cima” e “os de baixo”, os “pioneiros” e os “novos”, os “nordestinos” e os “afro-descendentes”. Cada rapaziada tem a sua birosca e quer o campinho de futebol, no seu pedaço. A noção de territorialidade também estabelece fronteiras e restringe a circulação. Mas, por outro lado, há claros caminhos de rompimento com essas fronteiras. Já não falo da internet que, no plano virtual, põe as pessoas em contato e dá acesso ao mundo. Falo de coisas concretas, do dia a dia. O principal elemento de transposição de fronteiras parece ser o trabalho. O deslocamento diário residência trabalho põe a pessoa em contato com a “outra cidade”, regida por outros códigos e leis. Mas também isso não é sempre verdade, pois numa favela mais dinâmica – como a Rocinha, muita gente resolve sua sobrevivência em postos de trabalho dentro da própria favela. Nesses casos, a mobilidade para “fora” se exerce nos fins de semana, com a ida à praia, ao futebol ou a uma excursão ao interior do Estado. Em sentido contrário, a fragmentação social em “tribos”, característica dos tempos da informação em tempo real e da globalização da economia, no caso da mobilidade, trabalha a favor. Os bailes de Charme, no Bola Preta ou em baixo do viaduto de Madureira; os bailes funk, em clubes de subúrbio; as rodas de Jongo e suas oficinas, na Serrinha; as escolas de samba, com seus ensaios; as igrejas e os diversos cultos, inclusive os afros; os times de futebol e os grupos de teatro, todas essas atividades promovem a mobilidade e formas particulares de sociabilidade, com suas práticas e códigos próprios. O baile de Charme, por exemplo, rompe até as fronteiras etárias, congregando “dinossauros” remanescentes da década de 1970 e jovens descolados dos subúrbios, no mesmo espaço e sob os mesmos códigos estéticos e comportamentais. Outro exemplo é o Jongo da Serrinha que se apresenta em teatros do circuito comercial e recebe “alunos” de toda a cidade. Apesar da existência de atividades promotoras da mobilidade, constata-se que, em geral, ainda há pouca permeabilidade da favela em relação aos bairros do entorno e, mesmo internamente, é comum encontrar moradores de um lado da f |