| Pediu-lhe que fizesse uma radiografia. Entraria para a arcada dos 30. Balzac não previu a mudança na constituição ossea para as de 30. Tudo bem, tem muito doutor em dentes que nunca passou da página 4 de um livro. Fê-lo. As cáries foram do céu da boca ao inferno da gengiva vermelho sangue. Elas não perdoam as gulosas por doce. Que o pecado se não evitado, no mínimo faz-se necessário disfarce. Beijo na alma do inventor de creme dental. Pena que o sono, várias, dispensou-na da perfeita higiene bucal. O açúcar espalhou-se em todas as almofadas. Cisos, dentes da frente, não poupou qualquer lateral. Garrincha ficaria com inveja dos dribles. Pontos pretos oferecem à face ao dentista como tantas outras escuridões de nós. The game is over. Quem mandou esconder-se da cadeira do tio tanto tempo! Quem mandou esconder sujeira debaixo do tapete! Mínimo de 6 sessões. Que droga, podia ter inventado lorota para não fazer radiografia. Dizia queconfiava na vista do doutor. Que a olho nu, só identificara uma dupla. Como fazem os apaixonados que acham um a dois defeitinhos no máximo no objeto de devoção. Chegada em casa, ligou para a bola da vez. Ao encontro deixaria porção de sedução na gaveta de casa. Abriria a arcada dentária da alma. Tinha pontos pretos, que os visse logo. que depois de algum tempo não se aceita devolução de mercadoria. Foram localizadas na base cáries evidentes: unhas roídas, um punhado de impaciência, bocado de ansiedade, intensidade acima do normal, persistência rasa, pneus no estômago, umas marcas de expressão precoces, um cálice de agressividade. Nada que um bom fluor lotado de afeto, bem querer, vontade de dar certo, humor, carinho, aconchego não desse jeito na louça. Lavada a porcelana, a moça prosseguiu gostada. Que no diagnóstico da radiografia lia-se: "humana".
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