| A menina leu a revista mais lida do país. Descobriu por ela que não era feliz. Ainda não havia casado, nem filhos e a consciência fez questão de não esquecer que matou aquela aula em que a professora pediu para trazer uma sementinha e ensinou a plantar uma arvore. Resolveu tentar novamente. Largou a revista no sofá e foi às calcadas. Disse-lhe um professor que quando não se acha a solução do problema debruçado na escrivaninha, procura-se nas caminhadas. Foi lá que ela achou uma lembrança. Vasculhou os filmes de sua vida e deu de cara com um garoto com olhar espumado de inocência saboreando, escondido, cenas clássicas dos beijos posados na tela. Esse menino crescera com esse olhar de fantasia. Culpa do cinema e de um velho. O único velho que sabia rodar o filme num cinema de vila. Um velho que carregava consigo um olhar não enrugado o bastante para perder a alma de menino bobo apaixonado pela sétima arte. Achara o mestre! Ao invés da pipoca, mastigou felicidade. Sentiu-se humana por ter nos olhos um pouco daquele menino. Cinema Paradiso...O paraíso não era tão longe assim. Um menino que queria uma tal felicidade que não sai na revista. E pensou baixinho no seu sonho, seu cinema particular - Queria um mestre desses. Alguém que falasse como e que faz o que a gente gosta. E dai a gente ficasse com cara de bobo, com vontade de não querer tirar ferias, com desejo de saber quando seria a próxima aula. Pegou um livro de um autor desconhecido. Perdeu a hora. Gostaria de ter escrito aquilo. Ou melhor, que bom que não escrevera para poder ficar com o olho de boba. Olhou para o sofá, viu a tal revista. Jogou fora. |