Disponibilidade era sua moeda de troca nessa vida, que aliás nunca lhe tratara com delicadeza. Achada em todo canto, como vírus da gripe, a dama avulsa, acostumada à solteirice, oferecia silhueta a qualquer. Dizia que essa era sua morte e vida Severina. Com a crise mundial, tinha dia que uma média com pão na chapa já pagava sua hora. Hora aliás que se transformava em um leque de muitas; módique a moça não suportava solidão. Só não abria mão de música que ecoava na vitrola rachada da tia, que lhe deixara de herança o gosto por Lupcinio. Acontece que, numa tarde de primavera, após um resto de café, a vida deu uma colher de chá: no canto do botequim, próximo ao caixa, lia-se em letra mal formada uma placa de “procura-se”. Cargo era de servente. Aquela que passou o pão que o diabo amassou, botaria o pingado e o pão de cada dia na barriga dos proletários. A placa estava lá há uma semana e só agora ela teve olhos de ver: “oferece pouso no fim do estabelecimento”. Nunca conhecera pouso certo... Terá horário a cumprir.Com ele, a falta de tempo para se machucar. A partir de amanhã não estaria mais disponível. |