Em 1942, a moça de nome Anne Frank ainda podia ser menina. Tanta coisa por dentro fervilhando. Aos treze ninguém sabe o que é ser morno. Em tempos de guerra, sabia-se judia numa Holanda invadida pelos nazistas. Naquele tempo sem blogs, menina vestia a vida num diário. Tão menina já brincando de ser gente grande ao conhecer de perto a possibilidade da morte lá fora. Lá fora do esconderijo secreto onde conviveu com mais oito atrás de uma estante de livros por ano e meio. Diante da guerra, sua alma não deixou de viver cada sabor dos treze. Até as seis da tarde experimentou o silêncio como garantia de sobrevivência. No entardecer, o sobreviver tirou o sobretudo e a moça pôde viver sua vida de menina. Entre quatro paredes, não perguntava a ninguém o que devia falar , fazer ou pensar. Imaginava... Experimentou tudo o que imaginou. Um amigo acariciando suas mãos. O primeiro salto alto. A boca ganhando o primeiro contorno vermelho de um batom. A espuma da fantasia do primeiro beijo. Do primeiro olhar malicioso. Frenesi. Um prato novo de nome amor. Garganta seca, olhos abrilhantados. Vontades. Desejos. Coragem. Apetite . A dificuldade diante da mãe desde que o mundo é mundo. Novidade. Comer a vida com pedaços generosos. Iguarias da vida de moça que experimentou ser menina antes de virar mulher. Queria ser escritora. E foi, Anne! Bom ter lido seu diário e ter visto que mesmo que a morte pudesse chegar a qualquer instante, a menina Anne em minuto qualquer deixou-se em banho maria. Tomara as moças de treze em 2010 possam experimentar o gosto de ser menina. Com tantas mudanças ortográficas, tomara, no dicionário afetivo de algumas, amor e imaginação ainda venham antes do sexo. |