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| O COMPANHEIRO DE QUARTO |
| 27/11/2008 |
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Não há raça mais ingrata do que a do repórter, principalmente o que viaja. Ele vai por aí afora fazendo amigos pelo caminho, sendo ajudado por muita gente, assegurando isso e aquilo ( “Pode deixar, que eu te mando uma cópia dessa foto” )e, no fim, não cumpre nada do que prometeu. Não é necessário o protesto dos meus caros colegas. Ponham a mão na consciência e procurem lembrar-se quantas vezes disseram que iam escrever, ou mesmo enviar um flagrante da reportagem. E que foram esquecidos, mal colocaram os pés novamente na redação. Vez por outra vem uma carta, de outro Estado ou país distante, protestando contra o esquecimento. E afirmamos convictos: “Amanhã eu escrevo pra ele”. Só que esse amanhã é realmente nunca.
Isto vem a propósito de uma carta que recebi há muitos anos de Angola, África. Encontrei-a por acaso entre os meus velhos guardados. E ela me lembra a figura amiga de Cruz Leal, um ótimo jornalista português.
Foi ele que, naquela distante nação, me contou que, certo dia, quando Angola ainda era uma possessão portuguesa, viajando de jipe pelo interior do país, percorria uma estrada do Norte, quando a noite o alcançou cansado e ansioso por uma boa dormida.
Com o corpo moído foi dar numa humilde estalagem à beira do caminho. Tudo fechado e às escuras. Bateu forte na porta e veio abri-la um moço com ar sonolento. Cruz Leal indagou se havia algum quarto para alugar, pois estava com muito sono e não queria dormir no carro. O rapaz examinou-o detidamente, levou algum tempo para responder, mas terminou dizendo:
-Só tem um quarto com duas camas e uma delas está ocupada. Se quiser ficar com a outra...
Cruz Leal estava pouco se importando em dormir ao lado de outra pessoa, em leitos separados. Por isso, concordou com o oferecimento, pagou a vaga adiantadamente e pediu ao moço que o acordasse às sete horas da manhã. Apanhou a vela que lhe foi estendida e foi com ela, pé ante pé, para o cômodo indicado.
A porta do quarto não estava fechada. Cruz Leal abriu-a devagar, para não acordar o companheiro da cama ocupada. Colocou a vela na mesinha de cabeceira, deu uma espiada furtiva no outro leito e viu um vulto escuro que nela estava deitado.
O homem parecia ferrado no sono, pois não fez o menor movimento. Cruz Leal deitou-se cuidadosamente, apagou a vela, virou-se para o lado e dormiu quase em seguida.
Algum tempo depois, foi acordado por um estranho barulho dentro do quarto.
Cruz Leal abriu os olhos. O sol já penetrava pela frestas da janela. Dentro do cômodo havia várias pessoas que choravam junto à cama do lado. O jornalista sentou-se no leito, surpreendido, e procurou entender o que acontecia. Num instante compreendeu tudo: seu companheiro de quarto era um cadáver !
Ele estava morto desde o dia anterior e ficara ali à espera da chegada dos parentes, que viriam buscá-lo para o enterro.
Meu caro Cruz Leal, eu fiquei de confirmar a chegada da sua carta e nunca o fiz. Perdoe esse repórter irresponsável.
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