Quando envelhecemos vamos esquecendo onde deixamos os óculos, mas ativamos as lembranças mais antigas. É um pouco como reviver a vida antes de deixá-la. Como ver de novo um filme antigo imperdível. Alguns dos episódios lembrados nos trazem alegria, outros tristezas, mas a vida é assim. Não é verdade? Historia 1 Não sei se é por causa do que tenho lido nos últimos jornais, ou por qualquer outro motivo voltou à minha memória um fato que demonstra como “os coronéis” existem em todos os países. Aprendi, aqui em Brasil, que “coronel” é o amo e senhor de um feudo, onde nasci os chamamos “caudillos”, o nome é diferente, mas o conceito e a definição são iguais. A historia é a seguinte: No início da década de noventa (não lembro a data exatamente), uma “coronela” da família, irmã de minha mãe, para ser mais exato, veio de ferias ao Rio de Janeiro. Hospedou-se num hotel em Ipanema e convocou para que fosse vê-la. Fiquei muito contente que me chamasse, havia 15 anos que não há via e pensei que seria agradável receber notícias dos primos e família “Correntina” em geral. Para que possam localizar-se ela era (falo no passado porque já morreu) a matriarca de uma família com fazenda e campo de cultivo de arroz em Corrientes (província do norte Argentino). Quando cheguei já me aguardava no “lobby” do hotel, nos cumprimentamos e nos sentamos para bater um papo. “Bater um papo” é força de expressão porque o único que fiz foi escutá-la durante os 20 minutos que falou, porque nem um cafezinho foi servido. Tentarei reproduzir em poucas frases o conteúdo do monólogo que ouvi antes de despedir-me alegando compromissos prévios inadiáveis. Foi a última vez que a vi. Monólogo: “Que bom ver você! Fico muito feliz por encontrar-te bem. Tens muita sorte por estar vivendo em Brasil, a situação na Argentina está cada dia mais difícil. Imagina que tive que gastar uma fortuna vacinando todas as vacas e o governo tem aumentado o salário dos peões. É impossível que as coisas continuem assim, nos estão cortando os créditos e os incentivos aos produtores do campo, o preço do arroz está caindo igual ao da carne. Vocês não têm a menor idéia da dificuldade que é ser dono de fazendas em Argentina, o governo e os peões querem todas as vantagens e nós passando dificuldades. Já não se pode viajar a Europa como sempre, há que contentar-nos com Brasil somente. Enfim que se pode fazer sobrinho! É a vida! Conclusão: Depois de ter escutado tudo isso não tive outra saída que lhe dar um beijo e lhe desejar uma boa estadia no Rio e lamentar profundamente o fato de ter una viagem marcada a outra cidade, o que seria impossível vê-la novamente antes que voltasse ao seu feudo. Mandei saudações para toda a família e lamentei as dificuldades pelas quais estava atravessando a minha pobre e coitada tia. Espero que não tenha pessoas assim na sua família. Ou tem? Boa semana
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