Será impressão minha? Não, não acredito. À medida que envelhecemos voltamos a contar uma e outra vez as mesmas histórias. Logicamente, umas mais que outras. Parece que nosso disco rígido fica sem capacidade para armazenar novas informações, nossa mente encontra dificuldades em processar e guardar novos procedimentos. As recordações são muito importantes para definir o que temos vivido e quem nós somos. Ao mesmo tempo corremos o risco de reviver o passado de uma forma tão constante que evita que aproveitemos o que nos queda por viver no futuro. O equilíbrio entre o passado e o futuro é o hoje. Assim como na adolescência não podíamos deixar que o futuro evitasse que vivêssemos o presente, não podemos permitir na terceira, quarta ou quinta idade que o passado seja o inimigo do hoje. Quando falo para meus filhos e netos algumas histórias da família me dizem: “Tens que escrevê-las, caso contrário se perderão.” Historia 2 Faz muitos anos, talvez mais dos que gostaria, meu pai estabeleceu um costume. Ir todos os sábados para o chá à confeitaria “The Copper Kettle”, que não existe mais, ficava na rua Lavalle e nos sentávamos para comer os deliciosos doces, misto quente com uma infusão tipicamente inglesa (plantada e colhida em Misiones, manufaturada na Inglaterra e importada de novo para Buenos Aires). Era um momento no qual batíamos um papo sobre o filme que tínhamos terminado de assistir, a semana anterior, o que queríamos e devíamos fazer na próxima semana; num ambiente elegante e agradável. Meu pai e eu de ternos e gravatas, minha mãe e minhas irmãs vestidas impecavelmente, e aprendendo a comportar-nos adequadamente, assim aprendemos a usar os talheres corretamente, como esperar que os garçons nos sirvam e a falar um depois do outro. Durou uns três anos. Quase todos os sábados, tinha se transformado numa tradição familiar. Depois que meu pai morreu, nunca mais voltamos a fazê-lo. O interessante foi o que mais me marcou destas experiências, uma vez quis demonstrar minhas habilidades matemáticas ao meu pai. Quando a conta chegou comecei a revisá-la para ver se a soma estava correta. Ele puxou da minha mão ao mesmo tempo em que dizia: “Não seja mal educado, não se revisa uma conta, pode ofender ao garçom.” Durante muito tempo acreditei que meu pai estava certo, a vida me ensinou que sempre devemos revisar as contas. Em Julho estivemos em Buenos Aires, minha mulher e eu. Ela pela primeira vez, não somente em Buenos Aires, mas na Argentina. Levei-a para conhecer a “calle Florida” e a “calle Lavalle” e quando passamos frente a onde esteve “The Copper Kettle” tinha uma loja qualquer. Senti-me frustrado. Por que a vida tinha feito sumir algo tão importante na minha vida? Passaram os dias e tomamos um café (vários, em Buenos Aires é o esporte nacional) e construímos novas memórias, lembranças diferentes. Percorremos a Praça San Martín e vimos o monumento aos mortos nas ilhas “Las Malvinas”, também muitas pessoas dormindo na grama. Novas vivencias, novas recordações. A vida recompensou-me com novas lembranças, as antigas não foram substituídas, porém ampliadas. Ficaram mais ricas. Assim como devemos revisar nossas contas, devemos revisar nossas recordações, atualizá-las, jogar fora o pó e trazê-las ao nosso presente para que façam parte de nosso hoje. Não devemos viver no passado, devemos trazê-lo para nosso hoje, porque o hoje é síntese do ontem e do que seremos amanhã. Boa semana
|