À medida que passam os anos, me sinto mais e mais brasileiro na minha cultura e modo de ser. Já são mais de 34 anos que vivo neste país que me tem dado mulher, netos, genros e noras. Os filhos os trouxe da Argentina, mas tenho dois brasileiros por escolha, os dois da minha mulher, que vieram com ela. Estou vivendo aos 63 anos um fenômeno, que todos os que somos da terceira idade vivem. Minhas lembranças recentes começam a enfraquecer e as da infância aparecem com mais força. Isto quer dizer que como adulto, na medida em que passa o tempo, sou cada vez mais brasileiro e nas minhas recordações de criança mais argentino. Espero que me desculpem esta introdução, mas foi necessária para situá-los no que vou lhes dizer. Lá na minha longínqua (distante) e próxima (sentimento) Resistencia (cidade em que nasci) era muito importante fazer 14 anos, porque a partir desse momento poderíamos usar calças compridas. Isto era como ganhar um diploma de adulto, deixávamos a calça curta, para entrar no mundo dos adultos. Tinha seus inconvenientes, porém, as bolinas de gude, as pipas, a bola de futebol, as figurinhas eram deixadas de lado e ainda tínhamos a obrigação de não ter mais joelhos ralados e sujos e devíamos começar a olhar as meninas de outra maneira (mundo estranho e incompreensível). Assim sem mais, num piscar de olhos abandonávamos nossa infância e já éramos homens. O mundo mudava e nos obrigava a crescer. As calças curtas ficavam somente para os esportes, nunca mais eram usados socialmente. A realidade era outra e nós tínhamos que mudar, caso contrário, se ouviam insultos (hoje conhecidos como bullying) do tipo: - Olhem a bichinha, ainda com calças curtas! Hoje em dia, tudo mudou. As calças compridas agora só são usadas para alguns momentos formais e solenes, já tenho visto em varias festas, quase formais, homens usando bermudas. Estamos vivendo uma época de infantilização. É comum ver rapazes (não posso chamá-los de homens, pré-conceito da minha formação) vivendo ainda em casa dos pais. Alguns são responsáveis, trabalham, têm cargos de responsabilidade, mais não aceitam as obrigações inerentes à vida de adulto. O dinheiro que ganham é deles, o dinheiro dos pais também o consideram próprio. Quem é culpado por esta situação? As duas partes. Por um lado à falta de imposição de limites por parte dos pais, do outro a acomodação dos filhos. Uma vez, um grande amigo meu, Martin West, tentava explicar-me o que era a vida depois da morte dizendo: - Imagina que se quando estava no útero da sua mãe, alguém lhe dizia, vem para aqui fora, saia do seu conforto e entra no mundo, provavelmente responderia “está maluco aqui está ótimo”. Morrer é um pouco como isso, é entrar num novo mundo ao qual não queremos ir porque já ficamos acostumados com o atual. Talvez isso esteja acontecendo com esta nova geração, tem estendido o útero materno até o lar e não querem entrar na nova vida que a sociedade lhes exige, é mais cômodo ficar na casa dos pais. Não sei vocês, mas a mim me faz uma falta enorme ver calças compridas nos rapazes depois dos 14 anos. Ver tantas bermudas com pernas cabeludas trocando figurinhas me faz pensar em quantas pessoas estão fugindo da experiência fascinante que é enfrentar à vida. E, você, amigo leitor que acha das calças compridas? Boa semana
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