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24/05/2010 00:15:00
Janelas abertas
18/05/2010 14:10:28
Calças compridas
Ensino
07/06/2010

Recebi um e-mail muito interessante da coordenadora de um colégio no qual trabalho. Conta a estória da involução do ensino da matemática. Fez-me pensar e sentei-me a escrever esta crônica. Como sempre faço fui primeiro ao dicionário para corroborar se o significado da palavra “ensino” estava corretamente gravado na minha mente.

Ensino: 1. Ação ou efeito de ensinar. 2. Forma sistemática normal de transmitir conhecimentos, particularmente em escolas. 3. Um dos principais aspectos, ou meios, de educação.

Se no primeiro dia de aula olhamos a nossos alunos e lhes dizemos: “A matéria deste ano, que vou ensinar-lhes é muito difícil.” Certamente no fim de ano, os que fracassem será por ter acreditado no professor e chegaram à conclusão que realmente é uma matéria difícil de aprender. Os que tiveram sucesso pensaram que o professor os enganou, porque não foi tão difícil assim.

Se por outro lado, no mesmo dia, ficamos calados, mas ao ver aos novos alunos pensamos: “Cada ano nos chegam alunos menos preparados”, seguramente no fim de ano encontraremos motivos para constatar nosso pensamento inicial.

Tenho uma teoria, que coloco em prática todos os anos e até agora tem funcionado. Parto do princípio que todos meus alunos são muito inteligentes e capazes de fazer tudo aquilo que lhes peçam. A vida me tem ensinado que se aguardo por muito receberei em abundancia, se aguardo por pouco, somente receberei migalhas.

Na estória da involução do ensino que recebi isto fica muito claro. Cada dia se espera menos dos alunos. À medida que vão passando os anos vamos exigindo menos e como resposta, recebemos menos.

Por quê?

Porque exigir mais dos outros automaticamente faz com que tenhamos que exigirmos mais de nós mesmos, e parece que quanto mais damos, mais nos pedem.

Todos aqueles que trabalham em algo que gostam e sentem paixão sabem do que estou falando. Quanto melhor fazemos uma tarefa, na seguinte estarão esperando que a façamos ainda melhor. E caso façamos um pouco, só um pouco inferior à anterior decepcionaremos aos que a recebem. É a mesma coisa que emprestar dinheiro a um amigo sempre que o precisa. Mas, no dia que a resposta seja não (por qualquer motivo), esse dia se perderá o amigo que se sentirá ofendido pela negativa. Em cambio aquele que sempre diz não, nunca ofenderá ninguém. Todos aguardam pela sua negativa.

Nossa sociedade ensina a pedir e não a receber. Saber receber ajuda, ensino ou qualquer coisa é muito importante, porque devemos estar conscientes do esforço do outro, quando nos dá algo. O professor está ensinando não somente porque recebe um salário, mas sim porque está dando de si aos outros, aquele que o faz só pelo dinheiro não é professor, está na profissão errada. Da mesma forma que um médico, um sacerdote, um policial, enfim todos os profissionais que tiveram bons professores que lhes ensinaram com o exemplo. Professores que exigiam de seus alunos, porém, primeiro se exigiam a eles mesmos.
Talvez sirva como exemplo a notícia que recebi pela morte de um querido professor que tive no ensino médio, do que é ser um professor e do que é ensinar.

EL DIA, domingo | 16.05.2010  (Tradução livre)
Negri
Por José Luis de Diego dediego_jl@yahoo.com.ar
Estava terminando a longa noite da ditadura e conheci a Negri. Também a um furacão de atividade e simpatia que se chamava Ana María Lorenzo. E outra senhora, Doris Herrero, que escondia sua enorme generosidade detrás de uma máscara de distância aristocrática. E a José María Ferrero, que um dia me mostrou, com sua voz de locutor, sua estupenda biblioteca num casarão na Rua 49. A Atilio Gamerro o conhecia de antes, porque tinha sido meu professor de Grego; um docente brilhante, lúcido e irônico, que ocultava sua vasta cultura mediante um cotidiano exercício da simplicidade e modéstia. A todos eles lhes devo ter ingressado como docente auxiliar em Humanidades (Humanas) e na então Escuela Superior de Periodismo (Escola Superior de Jornalismo). Nos anos da recuperação da democracia pairava a sensação de que tudo estava por ser feito e para mim, com vinte e cinco anos, devo confessar que me incomodava um pouco certa parcimônia nas maneiras, certa dureza nas ideias conservadoras daquele grupo de amigos.

Um dia – já confundo as datas- me chamaram por telefone, me disseram que Negri tinha tido um enfarte e queria falar comigo. Fui ao Hospital Italiano e aguardei na antessala da terapia intensiva. Segundo me advertiram, o médico tinha lhe proibido ocupar-se do trabalho, mas Negri insistiu tanto que avaliaram que seria pior caso não lhe permitisse fazê-lo, assim que lhe disseram: "Está bem, mas uma só visita e que seja breve". Não sei por que me escolheu, mas acredito que nesse momento era o único que trabalhava nas duas cátedras, em Humanidades (Humanas) e em Periodismo (Jornalismo); ou seja, comigo matava dois coelhos de uma tacada só. Negri, abatido e com uma barba incipiente, rodeado desses tubos infames que povoam essas salas, começou a dar-me instruções com um gemido ronco; eu tomava nota de tudo num caderno. Se me atrevia a dizer: "Negri, não se preocupe, tudo está bem-", me respondia: "Anote, de Diego". Nunca voltei a ver tanta obstinada responsabilidade, tal irrenunciável vocação.

Talvez um par de anos depois, por volta de 85 ou de 86. Estava na minha casa, um domingo pela manhã, com meus filhos pequenos correndo por aí e me assomei na janela para ver quem tocava a campainha. Para minha surpresa, era Negri. Chamaram a concurso seu cargo em Humanidades e veio até minha casa para explicar-me porque não ia se apresentar. "Sou somente um professor, de Diego, nunca fiz carreira acadêmica, nem pesquisei de acordo os protocolos que pedem hoje em dia; para mim o mais importante e do que mais gosto é dar aulas". Não só estava perante um exemplo de humildade num âmbito no qual pululam as vaidades áureas e a pedante soberba dos supostos escolhidos. Estava ante um símbolo vivo das mudanças que estavam chegando. Negri as percebeu, de um modo clarividente, e não quis brigar essa luta. A aquela geração de mestres os movimentava uma paixão pelos livros e uma vocação pelas salas de aula. Não os idealizo; nessa tarefa podiam ser melhores ou piores, bons ou maus, mas esse era o norte que os guiava. Depois deles, chegaram os congressos e os "papers", a voraz carreira acadêmica, a concorrência por fazer currículum, a efêmera glória de quem sabe tudo de uma pequena ilha do conhecimento e não sabe nada da grande cultura da que somos feitos.

Agora ficamos sabendo de que Negri morreu. O via muito de vez em quando. Não era seu amigo; nem sequer me animava a dizer-lhe Chicho, como seus amigos. Para mim, sua morte é o emblema do fim de uma geração de mestres que, mais que transmitir um conhecimento, contagiava uma paixão.

(*) O autor se refere nesta nota ao ilustre professor de Letras Eithel Orbit Negri, falecido no passado 21 de abril.

 
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